História do Cinema Latino Americano
As ditaduras militares marcaram a ferro a história da América Latina na última metade do século passado. Sustentadas pelo interesse dos Estados Unidos em manter a hegemonia política e econômica na região, em plena guerra fria, constituíram regimes de exceção, amordaçando a imprensa, imobilizando parlamentos, rasgando constituições e cooptando a justiça e a igreja. Foi um período marcado pela violência contra vozes dissonantes; pessoas eram presas, torturadas e mortas. No campo das idéias, a regra era controlar o imaginário popular, ao ponto de interferir na semântica e transformar golpe civil-militar em revolução, como no Brasil de 64. Numa sociedade submetida à força da repressão, só o reconhecimento da história oral possibilitaria uma investigação legítima sobre o tema, suplantando o obscurantismo desejado pelas forças reacionárias.
Recuperar o passado sombrio e construir a memória dos anos de chumbo para as gerações que não tiveram relação direta com a dolorosa experiência das ditaduras militares foi a tarefa seguinte. A ela se entregaram intelectuais e artistas na década de 1980. Nesse contexto surge em 85 o filme de Luiz Puenzo, A História Oficial. Não sem propósito, a personagem protagonista do filme é uma professora de história alienada da cruel realidade de um regime do qual o marido é fiel servidor. Assim, Alicia – magistralmente interpretada por Norma Aleandro – é a própria metáfora da História Oficial. Sem se dar conta, ela está a serviço da ditadura, e atua como instrumento ideológico de estado quando tenta ensinar aos seus alunos do curso secundário apenas a versão autorizada dos fatos.
O reencontro com uma amiga que chega do exílio tira Alicia do torpor da vida confortável que leva com o marido e a filha adotiva. Ela começa, então, a tomar conhecimento da realidade do regime militar na Argentina e passa a questionar certezas e verdades que tinha como absolutas, até que chega à desconstrução total do sonho de burguesia feliz a que antes se entregara. Puenzo se utiliza de elementos da narrativa de suspense para contar o doloroso processo de despertar de Alicia. O diretor monta, como se faz com um quebra-cabeça, peça por peça, o drama da mulher dividida entre o apego a suas convicções éticas e morais e o amor à filha roubada de uma presa política. A dimensão trágica da história de Alicia é também a metáfora da história da Argentina naquele momento: um país dividido entre os que prezam a justiça e a liberdade e os que se apegam a privilégios de classe, valores e bens materiais.
Na tela, a princípio, a câmera traduz em planos-seqüência o conforto dos que habitam o universo da alienação política e social. Aos poucos, na medida em que o roteiro revela os fatos que levaram Alicia a encetar sua busca pela verdade, a câmera abandona o conformismo inicial e se torna, também ela, investigadora. A montagem, por sua vez, num ritmo mais acelerado, torna-se inquietante, tenciona a relação com o espectador. A sucessão de planos fechados e a iluminação intimista, quase indiscreta, impedem qualquer distanciamento crítico. Ao contrário, a intenção agora parece ser a de contaminar a audiência pela atmosfera de desconfiança e insegurança que aflige aquela família. As descobertas e conseqüentes transformações nas atitudes de Alícia comovem a audiência e a incitam a tomar partido. Ao fim, a mensagem é clara, não há meio termo: ou bem estamos com o torturador ou nos unimos e defendemos os torturados.
A História Oficial é uma mostra do que se passou na Argentina nos anos de chumbo das ditaduras militares. É um dos filmes mais importantes do cinema mundial. É belo, comovente e relevante. Não apenas porque se trata de tema relevante, mas porque trata o tema com respeito ao espectador, sem tentar convencê-lo a todo custo com manobras rasteiras de imagens sanguinolentas em seqüências de tortura. É um filme que escancara a monumental brutalidade dos regimes de exceção em cenas de delicadeza sutil e até desconcertante. Palmas para o elenco que se fez meio eficaz para a mensagem. Aplausos para a trilha sonora, condutora precisa da emoção. Bravos para a cinematografia elegante e conseqüente no tratamento da história. Ovação para o maestro Luis Puenzo.
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